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quinta-feira, 16 de julho de 2015

INTRODUÇÃO AOS RITOS E RITUAIS HERMÉTICOS E ALQUÍMICOS DO SÉCULO XVIII


JOSÉ MANUEL ANES

INTRODUÇÃO AOS RITOS E RITUAIS HERMÉTICOS E ALQUÍMICOS DO SÉCULO XVIII

A Alquimia operativo-laboratorial (1) - a que é praticada em laboratório - é um rito sacrificial em que o alquimista sacrifica a matéria, constituindo esse rito (2) urna actividade individual. Apesar disso, os alquimistas reuniam-se por vezes em escolas, mesmo que reduzidas ao Mestre e ao discípulo, e trocavam opiniões entre si dentro de uma mesma escola, ou entre alquimistas de diversas escolas (3).

Existiram, no entanto, a partir de meados do século XVIII (e sobretudo nesse século), ritos e rituais herméticos e alquírnicos que não pretendiam fazer alquimia, mas preparar o candidato para uma assimilação dos princípios herméticos e da prática alquímica, num contexto ritual e dentro de um grupo organizado, através de uma cerimónia iniciática onde seriam revelados - na iniciação, na instrução e no catecismo - os segredos alquímicos.

Grande parte desses ritos e rituais foram criados num contexto maçónico, constituindo (altos) graus maçónicos, como o ritual (do grau) de Cavaleiro do Sol, ou mesmo um sistema (rito) maçónico, como o Rito Hermético de Dom Pernety, ou a Estrela Flamejante do Barão de Tschoudy.

Ocorre, a propósito, referir que alguns destes graus herméticos ou alquímicos ocorreram no seio da Maçonaria "dos Antigos", ou do universo maçónico por ela influenciado (e que tem raiz no hermetismo renascentista, nos Rosa-Cruzes do século XVII, etc.), mais aberta (e mesmo entusiasta) a receber ensinamentos provenientes de correntes esotéricas como a Cabala, a Teurgia, a Alquimia, etc., e interpretações esotéricas de tradições como a Cavalaria - como os ritos "escoceses", quer o Antigo e Aceite, quer o Rectificado, mas também os ritos de York, da Ordem Real da Escócia (Heredom de Kilwining e Cavaleiro Rosa-Cruz) e do Rito Sueco, proveniente, como o Rito Escoçês Rectificado, da maçonaria da Estrita Observância Templária alemã, e mesmo, ainda que não "regulares", os ritos "egípcios" de Cagliostro, de Misraim, etc. -, o que não se passa, de modo algum, na Maçonaria mais exotérica "dos Modernos" ( como, p.ex., o Rito de Emulação, inglês, e o Rito Francês) (4).

Vamos analisar, brevemente, alguns desses rituais e ritos - maçónicos ou para-maçónicos -do séc. XVIII (o último dos quais, o de Misraim, fixado em começos do século XIX, a partir de materiais do século XVIII).

A) O "Ritual alquímico secreto do grau de verdadeiro maçon académico" (1770) (5) de Dom Pernety (1716-1796) e dos seus "Iluminados de Avignon".

Antoine Joseph Pernety (Dom Pernety) nasceu em 1716 em Roanne-en-Forez e pronunciou os votos como beneditino da congregação de Saint-Maur, em 1732, na Abadia de Saint-Alllire de Clermont. Muito inteligente e culto - versado em Matemáticas, Ciências Naturais (participa na expedição de Louis de Bouganville às Ilhas Maldivas) e Pintura e Escultura (6) -ele encontra, na biblioteca da Abadia de Saint-Germain-des-Prés, o livro do abade Lenglet-Dufresnoy, Histoire de la Philosophie hermétique (Paris, 1742), completado com a tradução do Véritable Philalète (Entré au Palais fermé du Roi), que desperta nele uma paixão que perdurará até ao fim da sua vida: a Alquimia. Em 1758 (e 1786) (7), publicará as Fables égyptiennes et grecques dévoilées et réduites au même principe e em 1758 ( e 1787), o Dictionnaire mytho-hermétique, dans lequel on trouve les allégories fabuleuses des poètes, les métaphores, les énigmes et les termes barbares des philosophes hermétiques expliqués (B) . Em ambos os livros (mas particularmente no primeiro, ao qual ele se refere constantemente no Dictionnaire), Dom Pernety propõe-se dar uma explicação alquímica das "fábulas" da Antiguidade (Elíada, Odisseia, etc.) e também dos mitos religiosos egípcios que, segundo ele, conteriam todos os segredos da Grande Obra.

Tendo entrado em conflito com a congregação monástica beneditina de Saint-Germain-des-Prés, o nosso abade chega a Avignon em 1766, onde propõe desde logo um novo rito maçónico, o rito hermético, que foi adoptado pela Loja aristocrática dos Sectateurs de la Vertu (à qual ele parece aderir sem sabermos se ele já era maçon anteriormente ou se nela foi iniciado).

O rito (ou regime) de Pernety - inteiramente baseado no Hermetismo e destinado a cristãos discretamente sapientes (9) -era constituido por seis (altos) graus, para além dos três graus simbólicos (de Aprendiz, de Companheiro e de Mestre):

1 -Verdadeiro Maçon
2 -Verdadeiro Maçon na via recta
3 -Cavaleiro da Chave de Ouro
4- Cavaleiro da Iris
5 -Cavaleiro dos Argonautas
6 -Cavaleiro do Tosão de Ouro.

O ensino hermético era dado pelo Orador da Loja, desde o primeiro alto grau (de Verdadeiro Maçon): «Ia science à laquelle nous vous initions, est Ia premiere et Ia plus ancienne de toutes les sciences. Elle émane de Ia nature, ou plutôt c' est Ia nature elle-même, perfectionnée par I' art et fondée sur I' expérience. Dans tous les siècles, il y a eu des adeptes de cette science, et si, de nos jours, des chercheurs y consument en vain leurs biens, leurs travaux et leurs temps, c'est que, loin d'imiter Ia simplicité de Ia nature et de suivre des voies droites qu' elle trace, ils Ia parent d'un fard qu' elle ne peut souffrir et s' égarent dans un labyrinthe où leur folle imagination les entraîne.(10)

A partir de 1766-7, Dom Pemety está em Berlin como bibliotecário de Frederico II. Nesta cidade conhece outros hermetistas, toma contacto com as doutrinas de E. Swedenborg (relativo aos contactos com entidades celestes) e aperfeiçoa o seu Rito Hermético. Em 1783 recebe a "Santa Palavra" de uma entidade celestial que lhe ordena que abandone a Prússia e retome a Avignon, para fundar o grupo dos "Iluminados" - na sequência dos "Iluminados de Berlim", a que pertencera. Em 1787, o Rito tem cerca de uma centena de elementos e em 1789 é já célebre nos meios esotéricos.

A Instrução (ou Catecismo) - do Grau de Verdadeiro Maçon Académico - contém perguntas e respostas (11) relativas à teoria alquímica e também algumas alusões à sua prática (tradução é nossa):

P. -Por onde andaste? R. -A percorrer o céu e a terra. P. -O que viste? R. -O caos. P. -Quem o criou? R. -Deus. P. - Quem o produziu? R. -A Natureza. P. -Quem o aperfeiçoou? R. -Deus, a natureza e a arte. P. -O que entendes por caos? R. -A matéria universal sem forma e susceptivel de adquirir toda a forma. P. -Qual é a sua forma? R. -A luz encerrada nas sementes de toda a espécie. P. - Qual é a sua ligação? R. -O espirito universal cido. P. - Sabes trabalhar a matéria universal? R. -Sim, Sapientissimo. P. -De que é que te serves para esse fim? R. -Do fogo interno e externo. P. -O que é que resulta disso? R. -Os quatro elementos que são os princípios principiantes e mediantes. P. -Como é que eles se denominam? R. -O fogo, o ar, a água e a terra. P. -Quais são as suas qualidades? R. -0 quente, o seco, o frio e o húmido. Acopuladas duas a duas, dão respectivamente: a terra, seca e fria; a água, fria e húmida; o ar, húmido e quente; o fogo, quente e seco, o qual se vem a conjugar com a terra, pois os elementos são circulares como o vento, o nosso pai Hermes. P. -O que é que produz a mistura dos quatro elementos? E as qualidades de que tudo é composto? R. -Os trés princípios principiantes mediatos. P. -Que nome Ihes dás? R. -Mercúrio, enxofre e sal. P. -0 que entendes por mercúrio, enxofre e sal? R. -Eu entendo-os como mercúrio, enxofre e sal filosóficos e não vulgares. P. - O que é o mercúrio filos6fico? R. -É uma água e um espírito que dissolve e sublima o sal. P. -E o que é o enxofre? R. -É um fogo e uma alma que o guia e o colora. P. -O que é o sal? R. -É uma terra e um corpo que se congela e se fIXa e tudo isso se faz mediante o veiculo do ar. P. -O que decorre destes três princípios? R. -Os quatro elementos rodopiados como diz Hermes, ou os grandes elementos como diz Raimundo Lúlio, que são o mercúrio, o enxofre, o sal e o vidro, dos quais dois voláteis, a saber a água e o ar, que é o óleo, porque toda a substância liquida pela sua natureza dissipa o fogo, e a terra pura que é o vidro sobre o qual o fogo não tem acção (...) P. -O que entendem por mixtos? R. -os animais, os vegetais e os minerais. P. -Quem dá aos mixtos o movimento, o sentimento, o alimento e a substância? R. - os quatro elementos: o fogo dá o movimento, o ar dá o sentimento, a água, o alimento, e a terra, a substância. P. - Para que servem os quatro elementos redobrados? R. -Para engendrar a Pedra Filosofal se se for bastante industrioso para Ihes dar o fogo conveniente e Ihes dar os pesos da natureza. P. -Qual é o grau de fogo? R. -Trinta e duas horas para a putrefacção, trinta e seis para a sublimação, quarenta para a putrefacção...

B) Os rituais alquímicos do Barão de Tschoudy (1724 -1769) e os Estatutos dos "Filósofos Desconhecidos":

O nome desta Sociedade dos "Filósofos Desconhecidos" parece ter sido inspirado pelos "Estatutos dos Filósofos Desconhecidos", incluidos na obra do Cosmoplita (o alquimista polaco Michel Sendivogius), Tratados do Cosmopolita novamente descobertos (12).

-A Estrela Flamejante (1766)

Este Rito é "verdadeiramente alquímico" (13), e no seu catecismo (destinado a aprendizes, companheiros e professos) é feita uma descrição da Grande Obra Alquímica, inspirada nos textos do alquimista Michel de Sendivogius (1566-1646), o Cosmopolita (que também influenciou Dom Pernety), particularmente Nova Luz Química e Cartas Filos6ficas.

Da "instrução para o grau de adepto ou aprendiz Filósofo Sublime e Desconhecido", retiremos a seguinte passagem:

P. -De que mercúrio devemos servirmo-nos para a Obra? R. -De um mercúrio que não se encontra sobre a terra, mas que é extraído dos corpos, mas nunca mercúrio vulgar... P. - Como chamas a esse corpo? R. -Pedra bruta ou caos, ou "iliaste'; ou "hylé". P. -É essa mesma pedra bruta cujo símbolo caracteriza os nossos primeiros graus? R. -Sim, é a mesma que os maçons trabalham a desbastar e da qual eles querem retirar as imperfeições; essa pedra bruta é, por assim dizer, uma porção desse mesmo caos, ou massa confusa desconhecida e desprezada por todos... (14)

-O Cavaleiro do Sol

A Ordem ou "Sociedade dos Filósofos Desconhecidos" possuiu um sistema maçónico baseado no Hermetismo e na Alquimia, num contexto cristão, cujo 7°, Grau, de "Cavaleiro do Sol", foi praticamente incluido no 28° Grau do Rito Escocês Antigo e Aceite (codificado em 1802, em Charleston, E.U.A.) e no 51°, Grau do Rito de Misraim. A sua palavra de passe é Stibium, Estibina (Sulfureto de Antimónio), uma das matérias primeiras da Alquimia operativo-laboratorial, e a sua doutrina contém, segundo Michel Monereau (15), os seguintes temas: 1 - existe um primeiro princípio, incognoscível, que penetra o universo em todos os seus planos; 2 -a vida humana é apenas um ponto face à eternidade; 3 -a harmonia universal resulta do equilíbrio engendrado pela analogia dos contrários; 4 -o absoluto é o espírito que existe por si próprio; 5 -o visível é apenas a mainfestação do invisível; 6 -o mal é necessário à harmonia universal; 7 -a analogia é a única chave da natureza.(16)

C) A Ordem dos "Arquitectos Africanos" e o "Crata Repoa" (1770)

A Ordem dos "Arquitectos Africanos", ou dos "Irmãos Africanos" ("africanos" querendo dizer "egípcios"), foi instituída em 1767, na Prússia, sob os auspícios de Frederico o Grande (inspirador e protector de outros graus e ritos maçónicos entre os quais o Rito Escocês Antigo e Aceite) e teve como Grão Mestre von Koppen, ilustre membro da Estrita Observância Templária (organização maçónico-templária dirigida pelo Barão Carl von Hund). Estava organizada em 7 classes: 1ª, Pastophoris; 2ª, Néocoris; 3ª, Melanophoris; 4ª, Chistophoris; 5ª, Balahata; 6ª, Astrónomo da Porta de Deus; 7ª, Profeta ou Saphenath Pancah.

Este sistema hermético "visava revelar os segredos do antigo Egipto" (17) e estava baseado no livro do "Crata Repoa" publicado em 1770, na Alemanha, onde figuravam os graus desta "antiga maçonaria". Após ter passado pelas Trevas (no 3°. Grau, na "Porta da Morte" do Mestre Osíris), de onde apenas sairia após ter adquirido "verdadeiros conhecimentos", e de ter atingido a Luz após a "Batalha das Sombras" do 4°. Grau - onde receberia o "escudo de Isis" -, o iniciado assistia no 5° Grau a uma representação da morte da Serpente - Typhon, por Horus, finda a qual o Balahata aprendia a "química" (isto é, a Alquimia), "a arte de decompor as substâncias e de combinar os metais":

D) Cagliostro e o Ritual da Maçonaria Egípcia

Este ritual -mais hermético do que alquímico-laboratorial, visto que ele aponta no sentido das "alquimias internas" (não psico-espirituais, mas fisiológico-espirituais) -inclui umas "quarentenas espirituais", durante as quais cada um receberá propriamente o Pentágono (Estrela Flamejante), quer dizer, essa folha virgem sobre a qual os Anjos primitivos imprimiram os seus números e selos, e com a qual ele se tornará Mestre (...) e o seu espírito ficará cheio de um fogo divino e o seu corpo se tornará puro como o da criança mais inocente (...) com um poder imenso, não aspirando senão ao repouso para atingir a imortalidade e poder dizer dele próprio: Ego sum qui sum (Eu sou o que é).

O objectivo do seu Rito -a imortalidade conquistada durante a vida física -pode ser resumido por uma frase extraída do seu catecismo: «Tendo sido criado à imagem e à semelhança de Deus, eu recebi o poder de me tornar imortal e de ordenar aos seres espirituais para reinar sobre a terra».

Em 1784, Cagliostro fundou a Loja-mãe do seu Rito, "A Sabedoria Triunfante", mas o Rito em si parece não ter sobrevivido ao seu criador.

E) Os "Arcana Arcanorum" do Rito de Misraim e de Menfis-Misraim

Os "Arcana Arcanorum" (Mistério dos Mistérios) são os últimos graus do Rito de Misraim e do Rito de Menfis-Misraim que, embora constituídos nos começos do século XIX, estão baseados em textos do século XVIII (18), entre os quais provavelmente alguns de Cagliostro.

No 88° Grau "o iniciado deve... receber os influxos celestes e... sentir bater nele a vida universal, depois de o «orvalho celeste» ter descido nele para fecundar o germe que ele traz dentro de si". Após o 89°, Grau, que "permite um contacto com o invisível", vem o 90º. Onde é dito que: «Toda a vida oscila entre estes dois polos: Matéria e Espírito; Bem e Mal; Felicidade e Sofrimento. Toda a iniciação deve conduzir-nos da Lua ao Sol, de Isis a Osiris, da Matéria à essência divina».

Segundo Jean-Pierre Giudicielli (19) "É no grau do Cavaleiro Rosa Cruz que se desenvolve um Wuei Tan (via exterior) e não um Nei Tan, que é a obra mais avançada. Com efeito, o 18° Grau diz respeito às duas etapas clássicas da via exterior... Mas é sem equívoco possível, nos últimos graus de Misraim (87°, 88°, 89°, 90°), também chamados Escala de Nápoles, que residem certas chaves operativas da alquimia interna do Corpo de Glória (nei Tan), a qual já tinha sido anunciada no 12°. Grau de "Grande Mestre Arquitecto":

A suprema ambição dos Grandes Mestres Arquitectos é de fazer viver em eles a verdade e de comer o fruto da Árvore do conhecimento, de serem deuses.

Conclusão

Estes ritos e rituais herméticos e alquirnicos aparecem, no século XVIII, num contexto maçónico ou para-maçónico no ambiente iniciático que se pode denominar, numa perspectiva generalizada, de "Maçonaria dos Antigos", esotérica e mesmo ocultista.

Por falta de tempo não nos foi possível referir os Ritos da " Rosa Cruz de Ouro" (Alemanha, 1777) e da "Rosa Cruz de Ouro do Antigo Sistema" (Alemanha, 1781), ambos de natureza hermética e alquirnica, o que ficará para uma segunda parte desta introdução.

NOTAS

(1) Escolhemos esta denominação para distinguir a alquimia que é praticada em laboratório -também denominada de "fisica": embora ela pretenda promover a espiritualização da matéria, e nesse sentido ela é também e essencialmente "espiritual" -das alquimias denominadas "psicológicas", "espirituais", etc., as quais também apresentam uma operatividade. Há outras alquimias que são também "operativas", como por exemplo as "alquimias internas" que se desenrolam no interior do corpo humano (vide a alquimia taoista). Para uma definição de "alquimia operativo-laboratorial", ver a minha Tese de Doutoramento em Antropologia (Universidade Nova de Lisboa, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Lisboa, 2002), intitulada "Hermes redivivo -ressurgimentos da alquimia operativo-laboratorial na segunda metade do século XX: novos movimentos alquímicos franceses".

(2) Para uma discussão deste tema, ver a minha Tese Complementar de Doutoramento em Antropologia, na mesma Faculdade, "A Alquimia operativo- laboratorial, como rito sacrificial"

(3) Veja-se a tradição de encontros entre alquimistas, na Catedral de Notre-Dame de Paris referida nos começos do século XX, pelo alquimista (ou alquimistas...) Fulcanelli (in "O Mistério das Catedrais", Lisboa, 1973, p.54): «Os alquimistas do século XIV encontram-se aí, no dia de Saturno, no grande portal ou no portal de S. Marcelo, ou ainda na pequena Porta Vermelha, toda decorada de salamandras. Denys Zachaire informa-nos que o hábito se mantinha ainda no ano de 1539, "nos domingos e dias de festa" e Noel du Fail diz que «o grande encontro de tais académicos era em Notre-Dame de Paris». Aí (...) cada um expunha o resultado dos seus trabalhos, desenvolvia a ordem das suas pesquisas. Emitiam-se probabilidades, discutiam-se possibilidades, estudava-se no próprio local a alegoria do belo livro e a exegese abstrusa dos misteriosos símbolos não era a parte menos animada destas reuniões.»

(4) Para uma sucinta, mas esclarecedora discussão desta diferença entre "antigos" e "modernos", veja-se o interessante livro de Jean Solis, Guide Pratique de la Franc-Maçonnerie, Ed. Dervy, Paris, 2001 (livro que contém, no entanto, algumas incorrecções sobre as Obediências regulares no mundo, mas que o autor se propõe rectificar brevemente, conforme comunicação pessoal recente).

(5) Dom Pemety, Rituel Alchimique Secret, Viareggio, Ed. Rebis, 1981.

(6) Foi tradutor ( e comentador) de um tratado de matemáticas alemão, colaborou no 8°. Volume de Gallia Christiana, publicou um comentário da Regra de São Bento, com o título de Manuel bénédictin e, estando já destacado na Abadia de Saint-Germain des Prés, também um Dictionnaire portatif de peinture, de sculture et de gravure, procedendo nessa ocasião a estudos de Botânica ( cf. J. Bricaud, Les Illuminés d'Avignon, pp. 5-7).

(7) Redição em 1971, na Ed. Arché, Milão, e em 1982, nas Ed. La Table d'Emeraude, Paris.

(8) Reedição em 1972, em Milão, na Arché, e no mesmo ano, na Denoel, em Paris.

(9) Ver artigo 2 dos Estatutos a p. 3 do Rituel Alchimique Secret (op. cit.).

(10) J. Bricaud, op. cit., p. 33.

(11) cf. pp. 19-21 do Rituel Alchimique Secret (op. cit.)

(12) Bernard Roger, "Introdução" a Nouvelle Lumiere Chymique, Paris, Retz , 1976, p. 23. Ver também Zbigniew Sydlo, Michael Senvivogius and the «Statuts des Philosophes Inconnus", in "The Hermetic Journal", 1992, pp. 72-91.

(13) Michel Monereau, Les Secretes hermétiques de la Franc-Maçonnerie, Paris, Axis Mundi, 1989, p.27.

(14) ibid.; a tradução é nossa.

(15) Les Secrets Hermétiques de Ia Franc-Maçonnerie, pp. 26-27.

(16) ibid.; a tradução é nossa.

(17) Michel Monereau, op. cit., pp. 38-39

(18) Michel Monereau, op. cit., pp. 43-44.

(19) In Pour la Rose Rouge et la Croix d'Or, Paris, Axis Mundi, 1988, p. 68.

BIBLIOGRAFIA
Anónimo -Les Initiations antiques -t. II -Crata Repoa ou Initiations aux anciens mystères des prêtres d'Égypte, Paris, 1770 (e 1821), reed., Rouvray, Les Éditions du Prieuré, 1993.

Amadou, Robert -Cagliostro et le Rituel de la Maçonnerie Égyptienne, Paris, SEPP, 1996.

Bayard, Jean-Pierre -Symbolisme Maçonnique Traditionel- II: Hauts grades et Rites anglo-saxons, Paris, EDIMAF, 3a. Ed. rev. e aum., 1987.

Bricaud, Joanny -Les Illuminés d'Avignon -étude sur Dom Pernety et son groupe, Paris, 1927 (reeditada em 1995, pela SEPP, Paris).

Caillet, Serge -Arcanes et Rituels de la Maçonnerie Égyptienne, Paris, Guy Trédaniel Ed., 1994.

-La Sainte Parole des Illuminés d' Avignon, in "Le Fil d' Ariane" no.43-44 (Été-Automne 1991), Walhain-St-Paul, Belgique, pp.19-51.

Caro, Roger -Rituel F.A.R.+C et deux textes alchimiques inédits, edição do autor, Saint Cyr-sur-Mer, 1972.

Faivre, Antoine -El Esoterismo en el siglo XVIII (trad. espanhola da obra L'Ésotérisme au XVIIIe Siècle, Paris, 1973), EDAF, Madrid, 1976.

Giudicelli de Cressac-Bachelerie, J.-P. -Pour la Rose Rouge et la Croix d'Or, Paris, Ed. Axis Mundi, 1988.

Labouré, Denis -De Cagliostro aux Arcana Arcanorum, in "L'Originel" no.2, Paris, 1995.

Mollier, Pierre -Contribuition à l' étude du grade de Chevalier du Soleil, p. I, II, III, in "Renaissance Traditionelle", Paris, respectivamente, nºs. 91-92 (Junho-Outubro de 1992), 93 (Janeiro de 1993) e 94-95 (Abril-Julho de 1993)

Monereau, Michel- Les Secrets Hermétiques de la Franc-Maçonnerie et les rites de Misraim et Menphis, Paris, Ed. Axis Mundi, 1989.

Naudon, Pzul -Histoire, Rituels et Tuileur des Hauts Grades Maçonniques, Paris, Ed. Dervy, 3a. Ed. ver. e aum., 1984.

Pernety, Dom -Rituale alchimico secreto -Rituel alchimique secret du grade de vrai Maçon Académicien ( composé en 1770 ), reedição das Edizione Rebis, Viareggio, Itália, 1981.

Solis, Jean J. -Guide pratique de la Franc-Maçonnerie, Paris, Ed. Dervy, 2001.

Tschoudy, Baron de -L'Étoile Flamboyante, ou la Société des Franc-Maçons considérée sous tous les aspects (1766), Gutemberg Reprint, Paris, 1979.

Tshoudy, Baron de- Touts les rituels alchimiques du Baron de Tschoudy, reedição das Éditions Arma Artis, Paris, s.d.

Ventura, Gastone -Les Rites Maçonniques de Misraim et Memphis, Paris, Eds. Maisonneuve & Larose, 1986.


Fonte desconhecida, se souber nos avise,

domingo, 29 de dezembro de 2013

sábado, 12 de fevereiro de 2011

ALQUIMIA E MAÇONARIA



ALQUIMIA E MAÇONARIA
Omar Cartes


Podemos afirmar que o maçom tem contato com a Alquimia nos primeiros momentos em que, como candidato, tem contato com a Ordem. A Câmara de Reflexões indiscutivelmente é um legado alquimista, a sua "decoração" com os elementos água, enxofre e sal, que acrescida do mercúrio são substâncias que constituem a Prima Matéria da Alquimia. A Alquimia é estudada sob três aspectos diversos, suscetíveis de interpretações distintas, e que são: o cósmico, o humano e o terrestre.

Elas são representadas pelas três propriedades alquímicas: enxofre, mercúrio e sal. Muitos autores afirmam que há três, sete, dez e doze procedimentos respectivamente, porém, todos concordam em que há apenas um único objetivo na Alquimia, que é a transmutação em ouro dos metais mais grosseiros. Porém, este é apenas um dos aspectos da Alquimia, o terrestre ou puramente material, pois, compreendemos logicamente que o mesmo processo seja executado nas entranhas da Terra. Contudo além desta interpretação, há na Alquimia um significado simbólico, psíquico e espiritual.
 
Como vimos o alquimista procura simbolicamente ouro, isto nada mais é do que o maçom procura, através da sua opus, transformar a pedra bruta em pedra polida, e que é o aprimoramento moral e espiritual do maçom. Enquanto o alquimista cabalista muitas vezes procura a realização do ouro material, o alquimista ocultista, desdenhando o ouro das minas, volta toda a sua atenção e concentra todos os seus esforços na Divina Trindade do homem que, quando, finalmente se fundem, formam apenas um.
 
Os planos espiritual, mental, psíquico e físico da existência humana são comparados, em Alquimia, aos quatro elementos: fogo, ar, água e terra, e cada um deles é suscetível de uma constituição tripla, a saber: fixa, variável e volúvel. Aqui temos também um outro elo entre a Maçonaria e a Alquimia, mas precisamente nas três viagens que o recipiendário é obrigado a fazer acrescido da prova da Terra que simbolicamente, é a Câmara de Reflexões, a que nos referimos' anteriormente.
 
A Maçonaria vê na prova do AR (primeira viagem com seus ruídos e trovões) a representação do segundo elemento primordial que com seus meteoros e contínuas flutuações é o emblema da vida, sujeito as contraditórias variações. Na Alquimia o AR é trabalhado através da operação sublimatio. Ela transforma o material em ar por meio de sua elevação e volatilização. O termo "sublimatio" vem do Latim Sublimis, que significa elevado. Isso indica que o aspecto essencial do Sublimatio é um processo de elevação por intermédio do qual uma substância inferior se traduz numa forma superior mediante um movimento ascendente.
 
Na Maçonaria a água é o oceano e este é um símbolo do povo, a cujos serviços dedicam-se os verdadeiros maçons. Os homens são as gotas do vasto oceano da humanidade, de que as nações são partes.
 
Na Alquimia a água é a Prima Matéria, idéia que os alquimistas herdaram dos pré-Sócrates. Pensam os alquimistas que uma substância não poderia ser transformada sem antes ter sido reduzida à Prima Matéria. A água é trabalhada através da operação Solutio, esta provoca o desaparecimento de uma forma e o surgimento de uma nova forma regenerada. No poema abaixo, escrito por Lao Tse, a Maçonaria fala a mesma linguagem que a Alquimia, quando tratam de água:
 

"O menor dos homens é como a água.
A água a todas as coisas beneficia
E com elas não compete.
Ocupa os (humildes) locais visto por todos com desdém
Nos quais se assemelha ao Tao
Em sua morada (o Sábio) ama a (humilde) terra
Em seu coração ama a profundidade
Em suas relações com os outros, ama a gentileza
Em suas palavras, ama a sinceridade
No governo ama a paz
No trabalho, ama a habilidade
Em suas ações ama a oportunidade
Porquanto não quere-la
Vê-se livre de reparos."
 
O quarto elemento, o fogo, também une os propósitos dos dois colégios. Para a Maçonaria o fogo cujas chamas sempre simbolizam aspiração, fervor e zelo deve lembrar ao iniciado que este deve aspirar a excelência e a verdadeira glória e trabalhar com dedicação nas causas empenhadas, principalmente as do povo, da pátria e da ordem.
 
 Para o alquimista o fogo é tratado na operação calcinatio. Eis porque toda imagem que contém o fogo Livre queimando ou afetando substâncias se relaciona com a calcinatio. O fogo da calcinatio é um fogo purgador, embranquecedor. Atua sobre a matéria negra, a nigredo, tomando-a branca. Diz Basil Valentine: "Deves saber que isso (a calcinatio) é o único meio correto e legítimo de purificar nossa substância." Isso a vincula ao simbolismo do purgatório. A doutrina do purgatório é a versão teológica da calcinatio projetada na vida depois da morte.
 
Morte, um tema muito caro para os maçons e alquimistas. Na Maçonaria a morte é tratada de forma muito especial, na Lenda de Hiram que perpassa vários graus da Escada de Jacó. O maçom conhece muito bem estas palavras:... o pó volte a Terra e o espírito volte a Deus que o deu...
 
Para o alquimista a morte também é um processo, uma continuação que faz parte do trabalho da coagulatio. Esta pertence ao elemento Terra, e costuma ser seguida por outros processos, em geral pela mortificatio e pela putrefactio. Aquilo que se concretizou plenamente ora se acha sujeito à transformação. Tornou-se uma tribulação, que chama à transcendência. Eis como podemos entender as palavras do apóstolo Paulo ao vincular o corpo e a carne à morte: "Quem me libertará do corpo desta morte?... Porque, se vivemos na carne, morreremos; mas se por meio do espírito, mortificarmos os feitos do corpo, viveremos... Porque aquele que vive segundo a carne inclina-se para as coisas da carne. A inclinação da carne é a morte; mas a inclinação do espírito é a vida e paz”.
 
A identificação do corpo e da carne com a morte deve-se ao fato de que tudo aquilo que nasce no plano espaço-temporal deve submeter-se às limitações dessa existência, que incluem um fim a morte. Esse é o preço do ser real. Uma vez plenamente coagulado ou encarnado, o conteúdo torna-se sem vida, sem maiores possibilidades de crescimento. Emerson exprime essa idéia: "Somente a vida é beneficio, e não a ter vivido. A força cessa no instante do repouso; ela reside no momento da transição de um estado passado para um novo, na voragem do abismo, no arremesso contra o alvo. Eis um fato que o mundo abomina. O fato de a alma vir a ser porquanto isso degrada o passado, tornando todos os bens em pobreza, toda reputação em vergonha, confundindo o santo com o velhaco, varrendo Jesus e Judas para longe, sem distinção.” Realizada a plena coagulatio, vem a putrefactio. Porque o que semeia na sua carne da carne ceifará a corrupção; mas o que semeia no espírito do espírito ceifará a vida eterna. Um texto alquímico trata do mesmo tema: o leão, o sol inferior pela carne se corrompe... Assim, o leão tem corrompida a natureza por meio da sua carne, que segue os ritmos da lua, e é eclipsada. Porque a lua é a sombra do sol, e com o corpo corruptíveis é consumida; e, por meio da destruição da lua, o leão é eclipsado com auxílio da umidade de mercúrio; o eclipse não obstante, é transmutado tomando-se útil e de melhor natureza, e ainda mais perfeito do que o primeiro.
 
Em vários graus da Maçonaria o crânio é uma peça importante tanto na representação do grau como na ornamentação do templo para o ritual do grau. Pois bem, na alquimia o crânio como momento mori é um emblema da operação da mortificatio. Ele produz reflexões a respeito da mortalidade pessoal de cada um e serve como pedra de toque para os valores falsos e verdadeiros. Refletir sobre a morte pode nos levar a encarar a vida sob perspectiva da eternidade e, desse modo, a negra cabeça da morte pode transformar-se em ouro. Com efeito, a origem e o crescimento da consciência parecem estar vinculados de maneira peculiar à experiência da morte. Talvez o primeiro par de opostos a penetrar na consciência em vias de despertar dos seres humanos primitivos tenha sido o contraste entre o vivo e o morto. E provável que somente a criatura mortal seja capaz de ter consciência. Nossa mortalidade é nossa fraqueza mais importante e derradeira. E essa fraqueza, segundo C. G. Jung, foi o elemento que colocou Jó em vantagem diante de IAHWEH.
 
Esta palavra é muito significativa em alguns graus da Escola Filosófica da Maçonaria (REAA). IAHWEH é o nome da Divindade expressa no Antigo Testamento do Livro Sagrado. Para o alquimista IAHWEH redime e purifica pelo fogo sagrado, daqueles que passaram pela calcinatio: "Não temas, porque eu te resgatei, eu te chamei pelo teu nome, és meu. Quando passares pelo mar, estarei contigo; quando passares pelos rios eles não te submergirão. Quando passares pelo fogo, a chama não te atingirá e não te queimarás. Pois eu sou IAHWEH, teu Deus, o Santo de Israel, teu Salvador.
O Juízo final pelo fogo corresponde à provação pelo que testa a pureza dos metais e lhes retira todas as impurezas. Há inúmeras passagens do Antigo Testamento que usam metáforas para descrever os testes que IAHWEH submete seu povo eleito. Por exemplo, IAHWEH diz: "Voltarei minha mão contra ti, purificarei as tuas escórias no cadinho, removerei todas as impurezas." (Isa., 1:24,25)
 
"E eis que te pus na fogueira como a prata, testando-te no cadinho da aflição. Por causa de mim mesmo e só por mim mesmo, agi - deveria meu nome ser profanado? Jamais darei minha glória a outro." (Isa.,48;10,11)
 
"Eu os levarei ao fogo, e os purificarei como se purifica a prata, e os testarei como se testa o ouro. Eles invocarão meu nome e eu escutarei, respondendo: Eis o meu povo; e todos dirão IAHWEH é meu Deus.” (Zacarias 13:9)
 
O fogo purifica e santifica a matéria bruta e corrompida, os maçons e alquimistas sabem disso, no entanto, o fogo da Senda Sinistra mata e regride a evolução que o ser procura na sua existência. Este fogo nada mais é do que a luxúria, a inveja e ira. Nesta categoria temos a ira que moveu Nabucodonosor, ao destruir o Templo de Salomão. Ele personifica o motivo do poder, a autoridade arbitrária do ego inflamado, que passa pela calcinatio quando suas pretensões irresistíveis são frustradas pela presença da autoridade transpessoal. Nabucodonosor corresponde ao rei alquímico, que serve de alimento ao lobo e depois é calcinado
 
Conclusão:
A Maçonaria e os maçons com as suas alegorias de construção, como ferramentas: trolha, esquadro, compasso, régua, maço, cinzel; materiais como tríplice argamassa, de forma alguma querem dar a entender que queiram construir algum prédio material - quando assim o querem contratam uma firma especializada - mas sim a construção de um Templo Espiritual à Divindade Maior, o Grande Arquiteto do Universo. É a procura do auto-conhecimento para purificar o ente de cada obreiro, e a partir daí construir a morada do Espírito Santo como falam os cristãos. Essa construção maçônica percorre vários patamares (Escada de Jacó) e à medida que o maçom vai galgando os seus degraus (os graus maçônicos) ele tem um compromisso com a Lei do Karma de estar mais santificado que no patamar anterior. Da mesma forma o alquimista no seu trabalho de manipulação das substâncias não quer dizer que ele queira conseguir ouro material. Alquimia é a ciência pela qual as coisas podem não ser decompostas e recompostas (como se faz em química), mas também sua natureza essencial pode ser transformada e elevada ao mais alto grau ou ser transmutada em outra.
 
A química trata apenas da matéria morta, enquanto a Alquimia emprega a vida como fator. Todas as coisas têm natureza tríplice, da qual sua forma material e objetiva é sua manifestação inferior. Assim é que, por exemplo, há ouro espiritual, imaterial; ouro astral etéreo, fluído e invisível, e ouro terrestre, sólido, material e visível. Os dois primeiros são, digamos assim, o espírito e a alma do último e, empregando os poderes espirituais da alma, podemos produzir mudanças nele, a fim de que se, tornem visíveis no estado objetivo.
 
Certas manifestações exteriores podem ajudar aos poderes da alma em sua operação. Porém, sem os segundos, as manipulações serão totalmente inúteis. Portanto, os procedimentos alquímicos podem ser utilizados com êxito unicamente por aquele que é o alquimista nato ou por educação. Sendo todas as coisas de natureza tríplice, a Alquimia também apresenta um aspecto triplo. No aspecto superior, ensina a regeneração do homem espiritual, a purificação da mente e da vontade, o enobrecimento de todas as faculdades anímicas. No aspecto mais inferior trata das substâncias físicas e, abandonando o reino da alma viva e desvenda matéria morta. Termina na química de nossos dias. A Alquimia é um exercício do poder mágico da livre vontade espiritual do homem e, por esta razão, pode ser praticada apenas por aqueles que renascem espiritualmente.
 
Por último, passarei a palavra final aos alquimistas, ao citar, in toto, seu texto mais sagrado. A Tábua da Esmeralda de Hermes. Via-se esse texto “como uma espécie de revelação sobrenatural aos filhos de Hermes, feita pelo patrono e sua Divina Arte”. De acordo com a lenda, a tábua da Esmeralda foi encontrada no túmulo de Hermes Trismegistus,  por Alexandre o Grande, ou, em outra versão, por Sara, a esposa de Abraão. A princípio, só se conhecia o texto em latim, mas, em 1923, Holmyard descobriu uma versão árabe. É provável que um texto anterior tenha sido escrito em grego e, segundo Jung tinha origem alexandrina. Os alquimistas o tratavam com veneração ímpar, gravando suas afirmativas nas paredes do laboratório e citando-o constantemente em seus trabalhos. Trata-se do epítome críptico da opus alquímica, uma receita para segunda criação do mundo, o unus mundus
 



 A TÁBUA DA ESMERALDA DE HERMES
 1. Verdadeiro, sem enganos, certo e digníssimo de crédito.
2. Aquilo que está embaixo é igual àquilo que está em cima, e àquilo que está em cima é igual àquilo que está em baixo, para realizar os milagres de uma só coisa.
3. E, assim como todas as coisas se originam de uma só, pela mediação dessa coisa, assim também todas as coisas vieram dessa coisa, por meio da adaptação.
4. Seu pai é o sol; sua mãe, a lua; o vento a carregou em seu ventre; sua ama é a terra.
5. Eis o pai de tudo, a complementação de todo o mundo.
6. Sua força é completa se for voltada para dentro (ou na direção) da terra.
7. Separa a terra do fogo, o sutil do denso, com delicadeza e com grande ingenuidade.
 8. Ela ascendeu da terra para o céu, e desce outra vez para a terra, e recebe o poder do que está em cima e do que está embaixo. E, assim, terás a glória de todo o mundo. Desse modo, toda a treva fugirá de ti.
 9. Eis o forte poder da força absoluta; porque ela vence toda coisa sutil e penetra todo sólido.
10. E assim o mundo foi criado.
11. Daqui as prodigiosas adaptações, à feição das quais ela é.
12. E assim sou chamado HERMES TRISMEGISTUS, tendo as três partes da filosofia de todo o mundo.
13. Aquilo que eu disse acerca da operação do sol está terminado.
BIBLIOGRAFIA
 
1)       Blavatsky, Helena P. Glossário Teosófico. São Paulo: Global Editora e Distribuidora
2)       Edinger, Edward F. Anatomia da Psique: O Simbolismo Alquímico da Psicoterapia
3)       Figueiredo, Joaquim Gervásio de Dicionário de Maçonaria. São paulo: Pensamento/1987
4)       Rituais do Grande Oriente do Brasil e do Supremo Conselho do Brasil para o Rito Escocês Antigo e Aceito ( R.·.E.·.A.·.A.·.).