sábado, 16 de janeiro de 2010

MAÇONARIA E ROSACRUCIANISMO





Retomo as reflexões anteriores, tentando promover uma explicação compreensível dos laços que interligam o Rosacrucianismo e a Maçonaria especulativa.


Terminei a minha última prancha, citando alguns versos de um poema anónimo, de origem inglesa, dos princípios do século XVII que nos revela quão profunda e significativa é a proximidade existente:

“Porque somos Irmãos da Rosa-Cruz
Temos a palavra dos freemasons
E temos a dupla visão”.

Robert Fludd, tido como freemason e rosacruciano, na sua obra “A Ordem dos Rosa-Cruz (em 1617)” afirma, “os freemasons e os rosa-cruzes eram um único grupo que, um dia em tempos distantes, se separou para por um lado propagarem ideias filosóficas e filantrópicas e por outro realizarem trabalhos cabalísticos e alquímicos”.

Robert Fludd, considerado como o primeiro rosacruciano de Inglaterra, diz que o nome da ordem está ligado a uma alusão ao sangue de Cristo, na cruz do Golgota; a mística ideia da rosa, associada à lembrança da cor do sangue e aos espinhos que provocam o seu derramamento, contribuiu, certamente, para dar à palavra, uma grande força de sedução.

Muitos rosa-cruzes vêem, desde então, no seu emblema, um símbolo alquimista, concretizando uma ambiguidade muito comum na representação simbólica, a tal dupla função.

Como a preocupação máxima dos alquimistas que se ligaram à Ordem Rosa-Cruz ao longo dos séculos XVII e XVIII era o segredo da imortalidade e a regeneração universal, o símbolo rosacruciano estava igualmente relacionado com essa preocupação.

Os rosa-cruzes actuais têm, por outro lado, uma interpretação bem mais mística a respeito da cruz e a rosa. A cruz representaria o lado material do ser humano, enquanto a rosa representaria o ser imaterial, a alma, o espírito ou o corpo astral.

Em botânica, a rosa também tem um significado ocultista pois é tida como uma flor iniciática.

Por outro lado, diversas ordens religiosas cristãs, e nomeadamente no âmbito da arte sacra cristã, continua-se a considerá-la como símbolo da paciência, do martírio, da Virgem (Rosa Mística). No quarto domingo da Quaresma, a Rosa de Ouro é benzida, considerando-se como um dos muitos rituais sagrados oferecidos pela Igreja, na sua liturgia.

Em última análise, a rosa representa a mulher, enquanto que a cruz simboliza a virilidade masculina, pois para os hermetistas, ela é o símbolo da junção da eclíptica com o equador terrestre (eclíptica é a órbita aparente do Sol, ou a trajectória aparente que o Sol descreve, anualmente, no céu), consubstanciando-se tal junção nos equinócios da Primavera e do Outono.

Assim, a Rosa simboliza a Terra, como ser feminino, e a Cruz simboliza a virilidade do Sol, com toda a sua força criadora que fecunda a Terra. A junção dos sexos leva à perpetuação da vida e ao segredo da imortalidade, resultando, também, dela, a regeneração universal, que é o ponto mais alto da doutrina rosacruciana.

Voltando à questão da ligação existente entre a Maçonaria e os rosa-cruzes, todas as investigações apontam para que esta ligação tenha começado já na Idade Média, ou noutra perspectiva, que se tenha concretizado a partir daí. No fim do período medieval e começo da Idade Moderna, com o inicio da decadência das corporações operativas (englobadas sob o rótulo de maçonaria operativa), estas começaram, progressivamente, a aceitar elementos estranhos à arte de construir, admitindo, inicialmente, filósofos, hermetistas e alquimistas, cuja linguagem simbólica se assemelhava à dos franco-maçons. Como a Ordem Rosa-Cruz estava impregnada de alquimistas, como já vimos, resultou daí a ligação da Maçonaria ao rosacrucianismo e à alquimia.

Leve-se ainda em consideração, que durante o governo de José II, imperador da Alemanha de 1765 a 1790, e co-regente dos domínios hereditários da Casa de Áustria, houve um grande incremento da Ordem Rosa-Cruz e da sua comunidade, atingindo a própria Corte. Tal conduziu a que o imperador proibisse todas as sociedades secretas, abrindo, apenas, excepção aos maçons. Tal decisão fez com que muitos rosa-cruzes procurassem as lojas maçónicas.

Como se constata ambas as Ordens têm génese estruturada na Idade Média, considerando-se esse período como o de maior incremento da Maçonaria Operativa e o início da sua transformação em Maçonaria dos Aceitos (também chamada, de “Especulativa”).

Mas o rosacrucianismo, assim como a Maçonaria, são o resultado sincrético de diversas correntes filosóficas e religiosas: hermetismo egípcio, cabalismo judaico, gnosticismo cristão, alquimia. Neste pressuposto estaríamos a considerar o início das corporações operativas, em Roma, no século VI AC, como a origem natural da maçonaria operativa. Neste contexto, encontraríamos as suas origens na vida das muitas corporações operativas, ao longo dos quinze séculos, que antecederam a época medieval estando o seu aprofundamento orgânico bem retratado em diversas obras das quais se destaca a obra escrita de Vitruvius, do século I AC. Isto é claro, levando apenas em consideração, as evidências históricas autênticas e não as “lendas”, que fazem remontar a origem de ambas as instituições ao antigo Egipto.

A maçonaria é também uma ordem templarista, ou seja, os ensinamentos ocorrem dentro das lojas. Já em relação ao rosacrucianismo dá-se aos membros o livre arbítrio de estudar fora ou dentro dos templos Rosa-Cruz. O estudo em casa é sempre acompanhado à distância, e assim como na maçonaria, a evolução na aprendizagem faz-se por vários graus, que vão do neófito (iniciado) ao 12º grau, conhecido como o grau do Artesão.

O estudo no templo, mesmo não sendo obrigatório, proporciona ao membro rosacruciano, além do contacto social com os demais membros integrantes, a possibilidade de participar em experiências místicas em grupo, e de poder discutir com os presentes os resultados, e por fim, a reunião no templo fortalece a egrégora da organização, o que também ocorre na maçonaria.

A partir da metade do século XVIII e, principalmente, depois de José II, com a maciça entrada dos rosa-cruzes nas lojas maçónicas, tornou-se difícil, de uma maneira geral, separar Maçonaria e rosacrucianismo, tendo, a instituição maçónica, incorporado, nos seus vários ritos, o símbolo máximo dos rosa-cruzes: no 18º grau do Rito Escocês Antigo e Aceito, no 7º grau do Rito Moderno, no 12º grau do Rito Adoniramita.

O Cavaleiro Rosa Cruz, é, como o próprio nome diz, um grau cavaleiresco e constitui-se no 18º Grau do Rito Escocês Antigo e Aceito. A sua origem hermetista e a sua integração na Maçonaria, durante a Segunda metade do século XVIII, leva a marca dos ritualistas alquímicos, que redigiram, naquela época, os rituais dos Altos Graus. O hermetismo atribuído ao Grau 18 é perceptível no símbolo do grau, que tem uma Rosa sobreposta à Cruz, representando esta, o sacrifício e a Rosa, o segredo da imortalidade, que no esoterismo cristão, retratando a ressurreição de Jesus Cristo, simboliza de forma tipificada a transcendência da Grande Obra.

A Maçonaria também incorporou, em larga escala, o simbolismo dos rosa-cruzes, herdeiros dos alquimistas, modificando, um pouco, o seu significado místico e reduzindo-o a termos mais reais. Assim, o segredo da imortalidade da alma e do espírito humano, sendo aceito o princípio da regeneração, só pode ocorrer através do aperfeiçoamento contínuo do Homem e através da constante investigação da Verdade. O misticismo dos símbolos rosa-cruzes, todavia, foi mantido, pois embora a Maçonaria não seja uma ordem mística, ela, para divulgar, a sua mensagem de reformadora social, socorre-se do misticismo de diversas civilizações de mistérios e de várias correntes filosóficas, ocultistas e metafísicas.

Uma singularidade entre a Ordem Rosa-Cruz e a Maçonaria são as iniciações nos seus respectivos graus, sendo que para ambas, a primeira é a mais marcante. Sendo no caso da Maçonaria a iniciação feita no grau de Aprendiz, nos rosa-cruzes a admissão é feita no 1º grau do templo. As iniciações têm o mesmo objectivo, impressionar o iniciado, levá-lo à reflexão, para que ele decida naquele momento se deve ou não seguir adiante, e se o fizer, assumir o compromisso de manter velado todos os símbolos, usos e costumes da instituição de que fará parte.

Vários são os símbolos comuns às duas instituições, a começar pela disposição dos mestres nos seus cargos, lembrando os pontos cardeais, e a passagem do Sol pela Terra, do Oriente ao Ocidente. Cada ponto cardeal é ocupado por um membro do templo. A figura do venerável mestre na maçonaria, ocupando a sua posição no Oriente, encontra similar posição na Ordem Rosa-Cruz, na figura de um mestre instalado, que ocupa o seu lugar no leste. A linha imaginária que vai do altar dos juramentos ao Painel do Grau, e a caminhada somente feita no sentido horário, também são similares. Em ambos os casos o templo é pintado na cor azul celeste, e a entrada dos membros ocorre pelo Ocidente.

O altar dos juramentos encontra semelhança no Shekinah da ordem Rosa Cruz, sendo que, neste último, não se usa a bíblia ou outro livro de representação simbólica, mas sim 3 velas dispostas de forma triangular, que são acesas no início do ritual e apagadas no seu final, simbolizando a Luz, a Vida e o Amor.

Outra semelhança é o uso de avental por todos os membros iniciados para poderem ser admitidos no templo, enquanto que os oficiais do templo devem usar paramentos especiais, cada qual simbolizando o cargo que ocupa no ritual. O avental usado pelos membros não diferencia o grau de estudo e aprendizagem em que se encontra o membro rosacruz.

Algumas das diferenças ficam por conta da condução pessoal do ritual, onde na Ordem Rosa-Cruz subsiste sempre um fortíssimo carácter místico-filosófico.

Por último, os iniciados na Ordem Rosa-Cruz recebem os seus estudos num templo separado, anexo ao templo principal, enquanto os aprendizes maçons recebem as suas instruções juntamente com os demais irmãos e, finalmente, o formato físico da loja maçónica lembra as construções greco-romanas, enquanto que o templo rosacruciano lembra as construções egípcias.

Aqui ficam algumas descrições que retratam semelhanças e diferenças, quer em termos de visibilidade operativa, quer quanto a significados simbólicos, quer ainda em termos de práticas rituais, entre o que a Maçonaria é e representa e o que do rosacrucianismo transparece e integra.

Voltaire
Ano Rosa-Cruz 3360

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