quarta-feira, 23 de junho de 2010

RECONHECIMENTO, REGULARIDADE E SOBERANIA: A VISÃO INGLESA.





 (Venerável Irmão Robert A. H. Morrow, Grande Secretário e Grande Escriba Esdras, da Grande Loja Unida da Inglaterra.)


                                    Irmãos, não preciso dizer a esta platéia que aproximadamente na última década novas Grandes Lojas foram constituídas e o muito antigo relacionamento existente entre Grandes Lojas foi, às vezes, dramaticamente modificado. São muito claros os perigos da falta de melhor conhecimento e a necessidade de maior intercâmbio de consultas entre nós.   É importante que, de tempos em tempos, lembremo-nos dos princípios básicos para a avaliação da regularidade de uma Grande Loja e então decidir pelo seu reconhecimento ou não. É igualmente importante que em nosso grupo, todos sejam informados do que está acontecendo.

                                    A Inglaterra regulamentou seus Princípios Básicos para o Reconhecimento de uma Grande Loja em 1929, mas aquela regulamentação não foi um novo estatuto, mas apenas uma coletânea dos princípios que foram estabelecidos e comprovados desde a aparição das novas Grandes Lojas no século 18.    Acredito que todas as Grandes Lojas aqui representadas nesta reunião compartilham esses mesmos princípios básicos. Cada Grande Loja, no entanto, é (ou deveria ser) uma organização soberana, independente e auto-dirigida com o direito de determinar seu próprio trabalho e práticas. A Inglaterra não pretende impor suas idéias sobre a regularidade (ou qualquer outra questão) sobre qualquer outra Grande Loja, muito menos controlar seus trabalhos. Se uma Grande Loja prefere adotar outros princípios aos invés destes princípios (o que, como entidade independente, ela tem o direito de fazer) a conseqüência poderá ser que a UGLE irá considerá-la irregular.

                                     Antes de entrar nos detalhes de reconhecimento e regularidade eu deveria, talvez, explicar a visão da Inglaterra sobre a questão da soberania. Para nós, soberania e jurisdição territorial exclusiva não tem o mesmo conceito. Entendemos que a soberania significa que uma Grande Loja tenha a única e completa autoridade sobre seus membros e Lojas. Pode ser que tal autoridade se estenda a uma área geograficamente definida, mas não necessita ser assim para que nós consideremos uma Grande Loja como sendo soberana.    De fato, seria impossível, em nosso caso, considerar como jurisdição territorial exclusiva, parte de nossa soberania, por mais de 250 anos que, com felicidade, compartilhamos e continuamos a compartilhar todo o território do globo terrestre com nossas Grandes Lojas Irmãs da Escócia e Irlanda. Na Austrália, Nova Zelândia, Índia e África do Sul, as três Grande Lojas compartilham jurisdição territorial não apenas entre si, mas também, por acordo, com Grandes Lojas locais que foram constituídas naqueles lugares muito tempo antes que as Grande Lojas Inglesas, Escocesas e Irlandesas introduziram a Franco Maçonaria naqueles países.

                                  A palavra chave nesse caso é “por acordo”. É nossa visão, se uma Grande Loja concorda em compartilhar seu território com uma ou mais Grandes Lojas, tal fato, de maneira alguma, diminui a soberania das Grandes Lojas envolvidas. Bons exemplos disso são a Colômbia onde, por causa dos problemas geográficos e de comunicação quatro Grandes Lojas regulares compartilham o território e no Brasil, onde foi ha muito tempo reconhecido o Grande Oriente e agora reconhecemos três Grandes Lojas Estaduais, que são mutuamente reconhecidas entre si e com o Grande Oriente.

                                         Em conjunto com a Irlanda e Escócia, a UGLE ainda tem 700 Lojas em outros países, principalmente como resultado da difusão da Maçonaria através de todo o Império Britânico. Ao longo dos anos, Grandes Lojas nativas foram regularmente constituídas nos territórios onde as Lojas originalmente se subordinavam a jurisdição de uma ou mais das Grande Lojas das Ilhas Britânicas, com muitas das Lojas originais, tendo transferido sua obediência para as novas Grandes Lojas locais.  Algumas delas, entretanto, optaram em permanecer sob a jurisdição das Grandes Lojas Britânicas pelas quais foram constituídas, apesar de que, na maioria dos casos, seus membros são cidadãos daquele estado independente e não mais expatriados como antigamente.           

                                 Tal decisão cabe a cada Loja, de maneira mais apropriada possível; a UGLE não pode e não forçará qualquer de suas Lojas a transferir sua obediência a Grande Loja local (nem impedira que elas assim o façam) e continuará a administrar e apoiar essas Lojas sob jurisdição da UGLE. O que a UGLE faz é suspender a constituição de novas Lojas naquela área, uma vez que uma Grande Loja tenha sido constituída, considerando aquele território ocupado por uma autoridade maçônica soberana.   

                                        O que eu deveria, talvez, fazer é uma certa regressão ao comentar os conceitos de território ocupado e não ocupado. Nos últimos dois anos, temos sido acusados pela Grande Loja da Franca de consagrar Lojas em territórios ocupados (eles fazem esta acusação, mas de maneira ímpar, não apresentam um exemplo concreto que apóie sua acusação – quando nós os acusamos de invasão, por outro lado, podemos citar, a Espanha, República Checa e, acreditem ou não, na própria Inglaterra apenas para iniciar). Temos já há muito tempo a política de recusar a consagração de novas Lojas em territórios onde a Maçonaria já existe, seja ela regular, reconhecida ou irregular. Esta ultima alternativa pode surpreendê-los, mas, mesmo que a Maçonaria existente naquele lugar seja irregular, mesmo que não nos agrade, é um certo tipo de Maçonaria que pode ser capaz de ser reconhecida e seu território não pode ser declarado “aberto”. Nos últimos quinze anos fomos solicitados a abrir Lojas Inglesas na Espanha, Sérvia, Montenegro, Ucrânia e Romênia. Em todos os casos recusamos, porque alguma forma de Autoridade Maçônica então existia naqueles países e poderíamos ser culpados de estar invadindo seu território. Fora de nossos próprios Distritos, estabelecidos ha muito tempo, as únicas áreas nas quais estabelecemos novas Lojas nos últimos 50 anos foram Mônaco(que era um território aberto e foi feito apenas com a permissão da autoridade civil); Seychelles (que era um território aberto); Portugal (onde nossas Lojas existem com a permissão de uma Grande Loja (Legal) Regular; e Macedônia (na qual não tinha mais existido qualquer atividade maçônica, regular ou irregular, por mais de 80 anos).

                                       Regularidade é uma questão absoluta. Não pode ser condicional. Uma entidade não pode ser quase ou aproximadamente regular – ela é ou não é regular. Como já disse numa apresentação em Paris, dois anos atrás, é como se disséssemos que a mulher está um pouco grávida. Como alguns de vocês hoje presentes sabem, quando somos abordados para reconhecimento de uma Grande Loja nova ou reativada, enviamos um questionário solicitando informações detalhadas que assegurem que todos os oito Princípios Básicos são cumpridos. Se a Grande Loja peticionária não cumpre todos aqueles Princípios Básicos, o processo não tem andamento, apesar de que o diálogo pode continuar na esperança de que a Grande Loja peticionária possa levar adiante os passos necessários que a tornarão de acordo com aqueles Princípios Básicos.

                           Um reconhecimento é um ato bilateral entre duas partes soberanas. Quando estendemos o reconhecimento a uma Grande Loja, estamos dizendo que acreditamos que ela cumpre com nossos Princípios Básicos, com as praticas regulares da Franco Maçonaria e que não temos qualquer dificuldade para que nossos membros visitem Lojas subordinadas aquela Grande Loja e que podemos receber seus membros como visitantes a nossas Lojas. Reconhecimento não é um direito, mas um privilegio. Regularidade não confere automaticamente um reconhecimento, pois podem existir outros fatores envolvidos:

a.                     Se a UGLE já reconheceu uma Grande Loja, não reconhecera normalmente uma segunda Grande Loja naquele território, sem o consentimento de ambas.

b.    Em um território já ocupado por duas Grandes Lojas regulares (ainda não reconhecidas) e que não se reconhecem mutuamente, a UGLE deve normalmente esperar que suas diferenças sejam reconciliadas antes de reconhecer qualquer uma delas, ou ambas (na crença de que, fazendo de outra forma, poderá impedir a solução de problemas locais e que e, em geral, preferível que a Grande Loja que, naquele território, exista uma Grande Loja que represente a maioria de maçons regulares daquele lugar).
c.            A menos que uma Grande Loja já tenha sido constituída    pela própria UGLE, ou que tenhamos sido envolvidos naquele processo, a UGLE não concedera normalmente o reconhecimento ate que a Grande Loja esteja, por um certo tempo, em atividade pratica regular. Então, mesmo que uma Grande Loja tenha sido regulamente constituída (em qualquer das duas maneiras indicadas em nossos Princípios Básicos) a UGLE normalmente deve esperar e observara que sua pratica é regular da forma original, antes de tomar qualquer decisão de reconhecimento.

                              A UGLE lamenta que algumas de suas recentes decisões em relações internacionais não contaram com o apoio e compreensão de algumas das Grandes Lojas regulares com as quais, por longo tempo a UGLE teve um relacionamento harmonioso. Outras vezes, também, alguns dos amigos mais íntimos da UGLE escolheram reconhecer Grandes Lojas que a UGLE entendeu  não concordar ou aceitar, com razões que assim justifiquem e não foi capaz de acompanhar. Deixando de lado as razões de tais decisões (porque muitos anos já se passaram e deveríamos nos concentrar na realidade de hoje e oportunidades para o futuro), está claro que o que foi hoje apresentado foram interpretações dos mesmos princípios básicos de reconhecimento, de modos diferentes; alguns de nos precisa agir mais rapidamente do que os outros; muitos de nós provavelmente e até certo ponto não temos consultado os amigos antes de decidir que Grandes Lojas reconhecer ou da mesma forma ao romper um reconhecimento. As lições do passado indicam uma necessidade de melhores comunicações entre Grandes Lojas regulares e maior cautela “olhando bem antes de dar o passo”, o que é certamente o que tenho em mente ao aconselhar minha Grande Loja ao fazer qualquer mudança em suas relações internacionais.

                              Há com bastante freqüência, a proposta de alguma entidade internacional que aja como Câmara de compensação em questões de reconhecimento. Não penso que seja esse o caminho a seguir. Reconhecimento,  não preciso de qualquer escusa ao repetir, é um acordo bilateral entre dois poderes soberanos que deve formular suas próprias questões e decisões. A comunicação é a chave e é a razão de ser da realização desta reunião informal anual. Nós, Grandes Secretários e Grandes Chanceleres devemos ser o canal para agregar e trocar informações, aconselhando nossas Grandes Lojas nos caminhos a serem seguidos nas relações internacionais. Não temos a necessidade de nenhuma Secretaria formal ou sub-comitê para controlar esse processo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O CAMINHO DA SABEDORIA – CONTO DO DIÁLOGO ENTRE MITRA E ZOROASTRO



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Uma vez foi visitar o célebre sábio persa, Zoroastro, um dos seus amigos dos tempos da juventude, de nome Mitra. Depois de se abraçarem e saudarem, perguntou o sábio:

- Que é o que te conduz a mim, querido amigo? Feriu-te, por acaso, o mundo e desejas fortalecer-te ao lado do companheiro da tua juventude ? Ou vens trazido pela curiosidade de veres pessoalmente o que há de verdade das coisas que o povo conta a meu respeito?
Respondeu Mitra:

- Tu mesmo te referes à causa da minha vinda; não te ofenderá, portanto, a minha sinceridade.

Interesso-me por ti e pela tua sorte; e decidi vir para ver quem tem razão: se aqueles que afirmam  que chegaste ao conhecimento dos segredos da Natureza, tornando-te sábio, ou aqueles que dizem que és charlatão, que abusas da ignorância da multidão, a fim de seres considerado homem célebre.

Alegra-me que fales sinceramente – disse Zoroastro. - Mas qual é a tua propria opinião a meu respeito ?
Confessou Mitra:

- Ainda não a formei. Se é verdade que os outros afirmam, que és iluminado pela luz da Sabedoria, quero pedir-te que comigo comparti-lhes a tua felicidade; se, porém, tem razão os que falam mal de ti, desejo tentar desviar-te do meu caminho e conseguir que voltes a ti mesmo e a senda da virtude.

Comovido e entusiasmado, tomou Zoroastro pela sua a mão do amigo e lhe disse:
- Abençoada a hora que te trouxe a mim; e sete vezes abençoada, se tens a força e coragem de aproximar-te da Luz, de quem unicamente emana a vida, a felicidade e a sabedoria.

- Como? - exclamou o amigo. - Quererias introduzir-me no teu templo, que com tanto cuidado fechas a outros?

Contestou Zoroastro:
- O meu templo é a Natureza, e, nem que eu quisesse, o que seria loucura, não poderia nunca fecha-lo a pessoa alguma.

- Porém contam muitíssimos casos que repeles àqueles que desejam aprender de ti alguma coisa.
Perdoa-me se te digo o que penso. Se conseguiste conhecer a Sabedoria Superior - suponho que ela existe - por que a ocultas? Por que não a expões claramente ao povo, mas encobres a Verdade com véus de enigmas, alegorias e símbolos, que raras vezes um de muitas centenas de homens pode solver e compreender?

- Falas, Mitra, como todos aqueles que não tem idéia exata do assunto. De que utilidade ser-te-á, se te expuser o perfume de uma flor ? Poderás, de tal exposição, sentir esse perfume e conhecer a flor? 

De que te servirá se te descrever um banquete? Servir-te-á a minha descrição para matares tua fome? Analogamente, como posso fazer que alguém conheça a Sabedoria, se ele se recusa a procura-la? Há Sabedoria morta e Sabedoria viva. A Sabedoria morta nos vem dos livros, das narrações, dos cálculos, das medições e considerações. Esta Sabedoria pode nos ser dada e pode nos ser tomada. Mas a Sabedoria Viva emana da eterna Fonte da Vida, dessa Fonte que, uma vez aberta, nunca desaparece e sempre nos fornece bases imperecíveis para nossas construções no domínio da Razão. Porém, é impossível explicar e ensinar esta Sabedoria; é mister apropriar-nos dela sim como  nos apropriamos do perfume da flor ou da comida; ou melhor dito, é mister que a despertemos em  nós, assim como, pelo perfume, da flor, se desperta em nós o sentido do olfato. Vês como é difícil dar uma explicação, mesmo geral. E quando se passa às minuciosidades, a dificuldade cresce, pois a nossa linguagem é demasiado pobre e o nosso ouvido é demasiado cru para essas coisas tão delicadas. È necessário procurar e achar a Sabedoria em si mesmo; outro caminho não conduz a ela.

Mas espero que tudo isso se torrne mais claro se quiseres acompanhar-me na minha ida à maravilhosa Fonte que existe lá, nas montanhas que daqui se pode avistar.

E, dizendo isso, Zoroastro apontou além de uma serra, ao Oriente, duas montanhas mais altas, e continuou:

- Lá, entre aquelas duas montanhas elevadas emana uma Fonte que contém qualidades maravilhosas; purifica o coração, dissipa as evaporações e névoas que se acumularam na cabeça e na mente, e retira de nós a impureza das grandes cidades e as fuligens que a fumaça do mundo depositou em nosso interior. Depende de ti querer acompanhar-me até lá. Daqui a algumas semanas mostrarei o caminho que conduz a essa Fonte, há alguns que desejam conhece-la e com sua água se saciar. Verás, então, como sou liberal na distribuição da minha doutrina, como também te convencerás que pouquíssimos são os que, verdadeiramente e com seriedade, almejam atingir a verdadeira Sabedoria.
E Zoroastro foi preparando o seu novo discípulo para a viagem. Quando chegou o dia determinado, reuniram-se setenta discípulos ao redor do Mestre, para ouvirem ainda alguns conselhos relativos a viagem. Dando-se fraternais abraços, prometeram eterna fidelidade à Sabedoria, e puseram-se a caminho, separadamente, cada um escolhendo o caminho que mais lhe agradava: um a estrada larga e outro um caminho estreito; um em companhia de um amigo, outro sozinho; um preferia o campo, outro o bosque. Não caminharam em grandes grupos, para não chamarem a atenção do povo, porque a Sabedoria não quer, se a procuramos, ser objeto de conversações e críticas das multidões.

Quando os viajantes tinham caminhado desta forma durante três dias, reuniram-se todos numa grande cidade, onde floresciam o comércio, as ciências e as artes, e onde existiam numerosas instituições de educação, asilos e hospitais, como atestados do amor da cultura e humanidade dos seus cidadãos. De todos os países, ali se reuniram muitas pessoas, para observarem e estudarem os sistemas políticos, sociais, humanitários, e educacionais dessa cidade, considerados superiores aos demais conhecidos. O fato mais admirável, porém, era o de já haver ali a água da fonte da Sabedoria, embora apenas imitada; pois os químicos haviam estudado a composição natural da água genuína da dita fonte e conseguiram compor uma imitação, que os peritos consideravam tão boa, e talves até melhor do que a fonte da montanha.

Muitos dos discípulos de Zoroastro encontraram ali seus conhecidos, outros formaram novas amizades; assim, aconteceu que, após três dias, devendo continuar a viagem, sentiram-se tristes por se despedirem dos amigos; alguns decidiram ficar, pois haviam provado daquela água e, apesar de ser apenas uma imitação da água verdadeira, acharam-na muito gostosa e não sentiram mais vontade de procurar a verdadeira fonte.

Depois de outros cinco dias de viagem, durante os quais não encontraram lugares importantes, mas sim alguns lugarejos que apenas ofereciam divertimentos e gozos sensuais, os discípulos de Zoroastro que ainda continuavam a peregrinação, chegaram a uma cidade que excedia a anterior, tanto na grandeza, como no progresso. Ao se reunirem os viajantes, perceberam que novamente alguns companheiros haviam ficado para trás, atraídos e seduzidos pelos gozos e divertimentos encontrados no lugar acima mencionado. Alguns tinham encarregado seus condiscípulos que os desculpassem alegando necessidade de descanso e prometendo seguir viagem logo depois de renovarem as forças. Ouvindo isso, Zoroastro chamou a atenção dos presentes para os perigos que o discípulo encontra ao procurar a Sabedoria nas atrações das ilusões sensuais e admoestou os companheiros para que não perdessem a coragem de combater tais ilusões.

A cidade onde agora se achavam era um quase paraíso das ciências e das artes. Ali soavam todos os nomes célebres; as riquezas locais; lindíssimos jardins, edifícios majestosos, danças, cantos, esportes, jogos, lutas e festas divertiam os estrangeiros. Todos os talentos estavam agindo e recebiam suas recompensas. E, o que era mais admirável, vendia-se ali, por preço elevado a água da sabedoria, recolhida da própria fonte; mas não era pura; porque, para fazer dela um verdadeiro néctar, misturavam-lhe partículas de sabedoria de outros lugares.

- Esta é a verdadeira água da sabedoria - clamava o vendedor - a sua composição é a maior e a mais sublime arte e o mais profundo segredo. Zoroastro mesmo tem se esforçado por descobrir este segredo e não o conseguiu, pois aqui nada pode conseguir a razão humana; só a tradição fielmente conservada pelos adeptos, conservou a receita para o bem da humanidade.

Fácil é compreender que o vendedor dessa água fazia ótimos negócios, e até alguns dos companheiros de Zoroastro deixaram-se iludir, pois compraram e tomaram essa água, e julgaram-se desobrigados de continuar a viagem. Quando, no sexto dia se reuniram num lugar isolado a fim de  prosseguirem em sua peregrinação, o número de discípulos havia diminuído sensivelmente.

Zoroastro exortou-os, com palavras sinceras, paternais e sérias, a que persistissem, vencendo obstáculos e ilusões, quaisquer que fosse sua forma. Parecia como se temesse que chegaria sozinho à fonte. Mas aqueles que ainda o acompanhavam prometeram que continuariam até chegar ao alvo de sua viagem, apesar de todos os obstáculos possíveis.

Depois de novos sete dias de viagem, entraram numa cidade vasta, porém diferente das anteriores; não havia ai nada que lembrasse divertimentos; tudo respirava serenidade e reflexão. Havia ali uma universidade, onde professores, uns sentados, outro parados de pé, outro passeando, enchiam as cabeças dos seus discípulos com os conteúdos de todos os livros e ensinamentos dos mestres eruditos de todo o mundo e de todos os séculos. Havia também um templo da sabedoria, onde era fornecida a água da maravilhosa fonte, e essa água era pura, genuína e sem mistura alguma. Era trazida diretamente, carregada em vasos especialmente fabricados para este fim, impermeáveis, para não se perder nem uma gota; e esses vasos eram lacrados com um selo, de que se afirmava que fora usado já por Enoque, para defender da morte corporal. Nestes vasos, debaixo do selo, ficava a água durante sete semanas, sete dias e sete horas, guardada para desenvolver as qualidades perfeitas que não podia manifestar - assim se dizia - na fonte e no momento em que era retirada. Essa água era vendida por um pequeno preço e aqueles que a bebiam aguardavam com paciência e esperança, o efeito prometido; e quando este se manifestava, ninguém tinha a coragem de confessar que havia sido iludido, porque não queria causar inimizades nem prejudicar a boa fama da água.

Depois de passarem ali sete dias, os viajantes continuaram a jornada. Faltavam ainda nove dias para chegarem a almejada fonte. Depois de três dias, deviam novamente reunir-se todos num certo lugar.

Já estava pondo-se o Sol naquele dia e só quatro estavam no lugar designado. Zoroastro olhou o pequeno resto do séqüito e disse apenas:
- Vamos descansar.
No dia seguinte passaram por um riacho que caia de um rochedo.
- Vede! - Disse Zoroastro - Aqui está aquela água, cuja fonte procuramos. Daqui a tiram aqueles que a vendem na cidade que visitamos. Vamos adiante!

O caminho subia íngrime e em alguns lugares apenas as fendas das rochas serviam para se seguraremo. Finalmente, os caminhantes chegaram ao lugar onde viram elevar-se nos ares dois altos montes, um à direita e outro à esquerda.

- Estes dois montes - explicou Zoroastro - formam o vale onde encontraremos nossa fonte. O caminho até lá é perigoso, e cada um de nós tem que passa-lo sozinho, para devidamente se preparar e provar que seriamente deseja beber dessa fonte da verdade. Quem, durante a viagem se deixou seduzir, bebendo da água imitada ou selada, ficou para trás, porque não suportaria o caminho. E, apontando a cada um dos quatro o caminho a seguir, afastou-se deles.

Então, os quatro acharam crítica a situação. Com surpresa olharam ao redor de si, e sentiram-se com pouca coragem de prosseguir. Finalmente um deles disse:

- Irmãos, avante! Não nos servirá a vacilação. Eu confio na proteção da Sabedoria, em cuja proximidade estamos e com coragem irei adiante. Desejo-vos êxito; tornaremos a ver-nos juntos à fonte.

E segiu na direção que Zoroastro lhe havia apontado. O nome deste corajoso era Ali. Mitra também continuou a viagem, tendo adquirido mais energia com as palavras de Ali. Os outros que tinham provado da água milagrosa na cidade por onde ultimamente passaram, julgaram inútil prosseguir, e rataram de voltar. Assim, pois, só Ali e Mitra continuaram a viagem à fonte. Ambos tinham-se abstido de experimentar, nas ocasiões oferecidas, a água imitada ou selada; ambos estavam animados de um vivo desejo de alcançar a fonte da verdadeira, pura e livre água da sabedoria. E quem descreverá a alegria que ambos sentiram nos seus corações, quando, vindo um de um lado, e o outro do outro lado, ambos se encontraram, no dia seguinte num vale, diante de uma pirâmide, formada pela Natureza; no centro dessa pirâmide manava, de um triângulo de ouro, a mais pura, a mais clara água. E no mesmo instante, apareceu ao lado deles Zoroastro, abraçando-os e dizendo:

- Ao menos vós dois chegastes! Graças ao Dirigente do Destino! Mas, ainda não bebais desta água, tão pura. É preciso que vos prepareis dignamente, para que os seus efeitos vos sejam benéficos e duradouros.

E, umedecendo com a água da Sabedoria as testas dos dois companheiros, e dando-lhes frutas para que comessem, disse-lhes:

- Ainda por três dias terei que esperar-vos e a cada um lhe será dada uma tenda, e ali cada um deverá observar-se a si mesmo. Evocai os dias da vossa infância, vossa pura inocência. Unindo esses dias com o presente, esquecei todo o tempo que está entre essa infância e hoje. Elevai em seguida, os vossos pensamentos para o eterno futuro, para que o passado da inocência o presente e o futuro se unam num só pensamento e vos tornem dignos de receberdes a suprema consagração!

E, levando-os as suas tendas, recomendou a proteção da Eterna e Onipresente Divindade. Três dias depois estiveram novamente ao pé da pirâmide. Zoroastro encheu um cálice de água para cada um.

Ergueu o seu e bebeu, brindando ao passado ao presente e ao futuro. Os dois amigos seguiram o seu exemplo. Com sublime seriedade levantou os braços e pronunciou uma prece em nome de 

Aquele que sempre foi, que é e que será e disse:
- Está feito, caia o véu! Vós abandonastes a multidão mutável e elevaste-vos as regiões do que é imutável, onde não domina mais o acaso, mas onde reina a Verdade, e onde a claridade da Luz Eterna nos torna conhecidos às leis da Eternidade. Abençoada seja esta hora! Duas almas foram trazidas a Imortalidade! Abraçai-me, irmãos; continuaremos sendo irmãos. O Mestre é Um só e Ele vos conduzirá no futuro.

- Os três passaram mais alguns dias naquele lugar Sagrado. Depois saíram dali juntos e, sem dificuldade, alcançaram o lugar de sua partida e, quando Zoroastro chegou à sala de reuniões, eis que ali estavam reunidos todos os setenta discípulos, muito alegres que podiam agradecer ao Mestre a felicidade que encontraram na viagem. Zoroastro falou com amistosa seriedade e explicou como é fácil considerar como verdade uma ilusão. Exortou-os que evitassem toda ilusão e não se cansassem  de procurar a Verdade, até encontrá-la. Depois de se despedirem, ficou com os dois companheiros vitoriosos, Ali e Mitra, e levou-os a sua casa e lhes disse:

- A vós nada mais tenho a ensinar. Conhecestes a Verdade e a sua fonte. Ide cada um pelo vosso próprio caminho, e, se encontrardes ouvidos capazes de vos ouvir e compreender, ensinai-lhes o modo de conhecer o Espírito. Que o vosso ensino seja calmo e dado em rodas de irmãos. Nunca pregueis vossas doutrinas nos lugares públicos, no movimento das massas nas lutas dos partidos nem onde se procura poder político, honras ou riquezas. Na arte dissolvente dos discursos públicos foge o espírito e, assim, o orador apresenta-nos um alimento que podemos perceber, mas não comer.

- E se não encontrarmos ouvintes – Perguntaram os dois amigos, - Que deveremos fazer?
- Então tomai por vosso modelo a fonte no deserto - respondeu Zoroastro -– Ela corre incessantemente e, se em um século matou a sede de um só viajante sedento, não ficou sem utilidade, e não fluiu em vão.

Fonte: Sociedade das Ciências Antigas.